Inteligência informal: compartilhando a cidade pública

Edwin Heathcote é escritor, arquiteto e designer e crítico de design e arquitetura do Financial Times desde 1999

Convidamos o crítico de arquitetura e design Edwin Heathcote para compartilhar seu pensamento sobre as atividades realizadas no período de seis meses. Por não estar envolvido no processo do projeto, nós lhe pedimos para examiná-lo e escrever suas impressões do trabalho desenvolvido no urbanxchanger e para analisar os resultados com um olhar novo.

 

Introdução
'A cidade', escreveu Lewis Mumford, 'é um fato na natureza, como uma caverna, uma corrida de  cavalas ou um formigueiro. Mas é também uma obra de arte consciente, e mantém dentro de sua estrutura coletiva  muitas formas de arte mais simples e pessoais.'

Há algo incômodo na ideia de um formigueiro, mas a noção da cidade informal como algo mais parecido a um organismo do que a uma máquina modernista, soa verdadeira. É um assentamento feito sem arquitetos, sem planejadores, mas não sem arquitetura ou planejamento. Quando falamos sobre sustentabilidade, falamos sobre energia incorporada  nas estruturas da cidade—mas não falamos sobre a inteligência incorporada

na qual a cidade informal está tão claramente imersa. O caráter de improvisação, ad hoc, de informalidade é infindavelmente surpreendente. As pessoas fazem sua cidade como podem, com ferramentas e meios que lhes são disponíveis. E embora possam lhes faltar muitas comodidades que esperamos de nossas cidades, esses lugares são pelo menos tão urbanos—se não mais—que as cidades mais cuidadosamente planejadas na Terra. Sua mágica está na densidade, e não apenas no quanto elas estão lotadas de pessoas, mas na intensidade das transações—social, financeira, cooperativa, comunitária. Pessoas fazendo e consertando, inventando, desmontando e renovando, em encontros casuais e no apoio mútuo.

A tentação da cidade informal é sempre a de começar de novo—planejar, reconstruir. Mas os problemas que as cidades do mundo enfrentam apresentam uma escala quase incompreensível. O mundo dobrará sua taxa de urbanização por volta de 2050. Haverá o dobro de pessoas nas cidades, em comparação a hoje, com dois bilhões delas vivendo em situações informais. Não há soluções que possam ser impostas de cima. A mudança terá que vir das ruas e dos cortiços, dos becos e dos morros, de baixo para cima.

Urbanxchanger é uma tentativa de catalisar essa mudança, essa engenhosidade, através de pesquisa e experimentação em lugares específicos e com populações existentes, e então criar uma plataforma para compartilhar essa inteligência.

 

Desperdício de Espaço?
O espaço pode ser escasso, o espaço pode ser abundante, o espaço pode ser maldefinido. Mas é no uso inteligente e intenso do espaço que o espírito da cidade reside.

Seja intensidade, densidade ou limite, cada uma das intervenções apresentadas aqui trata, à sua maneira, da definição e delinemento do espaço. Na borda da Cidade do México o espaço parece ser abundante, a paisagem natural estende-se até onde a vista pode alcançar; no entanto, é exatamente a questão de definir o limite entre a cidade e o campo que a manterá como um lugar especial. Fora de São Paulo, há espaço de sobra, uma faixa de terra não usada sob os cabos de força suspensos. Na densa informalidade de Nova Délhi há espaço urbano, mas ele é maldefinido como um lugar. Na Cidade do Cabo, o problema é a contenção do espaço interior, a criação de uma estrutura para definir o espaço. Em Berlim o problema é a definição também—a estranha anomalia de espaço comum generoso que parece não ter uma finalidade específica e acaba não sendo usado.

Os problemas de assentamentos informais são considerados, com frequência, intransponíveis. Os projetos urbanxchanger ilustram a tangibilidade até mesmo das menores intervenções na definição do lugar e do espaço, e no aprimoramento radical das condições urbanas através de meios mínimos.

Toda cidade tem seus próprios problemas, e todo assentamento, suas próprias privações e carências, mas cada um deles pode aprender algo com os outros. É desse potencial para trocas que estamos falando.

 

Produção Abaixo da Rede Elétrica
A borda de qualquer megacidade é maldefinida, um limite em fluxo constante, sendo sempre testado, empurrado e questionado.

Vacila entre o urbano e o rural, entre a produtividade e o desperdício, entre a agricultura, o suburbano e a favela.

É exatamente essa incerteza que a torna tão cheia de potencial, um espaço embrionário do possível. Mas como a cidade afeta o campo sem que o rural desapareça, ou sem o achatamento informal de seu potencial?

A resposta—pelo menos na parte provocativa—está aqui, na borda leste de São Paulo. E esta resposta serpenteia ao longo do espaço desperdiçado sob a rede de energia que gera eletricidade para a cidade.

Sob esse corredor de energia está uma paisagem atenuada de agricultura urbana, trazida de volta para a vida produtiva das comunidades, em colaboração com a AES Eletropaulo, a empresa de eletricidade e proprietária dos cabos suspensos e da faixa de terra abaixo deles. O projeto trata tanto da falta de espaço público verde na cidade, da falta de acesso a alimentos frescos cultivados para os habitantes mais pobres da comunidade, quanto da falta de oportunidades dos residentes locais para complementar sua  renda. Cidades Sem Fome, uma ONG que funciona desde 2004, usa o cultivo da terra como mecanismo não só para melhorar a nutrição de adultos e crianças, mas também como uma forma de reintegrar socialmente grupos marginalizados. O alimento é sempre um foco da vida social—mas a pobreza amplia sua importância.

Aglutinando-se ao trabalho iniciado pelo Sr. Genival, pioneiro no cultivo da terra sob a rede elétrica, este projeto representa uma tentativa de formalizar os acordos com a empresa de energia elétrica, para promover o cultivo tanto como produção quanto como atividade, e para criar um espaço onde o alimento pode ser testado, provado, discutido e as ideias, disseminadas.

Este projeto se baseia na produção, na terra. Basta um leve toque para que se manifeste fisicamente. No entanto, também trata da criação de um espaço urbano para suplementar um pedaço da cidade que é denso e mal servido. É paradoxal por natureza—um espaço urbano no campo, uma faixa verde para a cidade da qual está separada, e uma plantação orgânica que compensa a energia ávida de carbono que é transportada diretamente acima dela.

Os elementos do projeto, desenvolvidos em colaboração com a ONG e produtores locais, são despretensiosos —deliberadamente ad hoc e impermanentes  por se curvarem ao rural, em vez de tentar simular o urbano no campo. O teto é uma estrutura simples de madeira coberto com tecido  para criar um lugar de encontro—a cobertura mais básica para mesa e bancos. O banheiro é outro espaço arquetípico, em que o dejeto se torna fertilizante. E há um playground e um salão para ginástica, dois lados da mesma moeda, que permite que os moradores da cidade se movam livremente, exercitem e aproveitem a companhia uns dos outros e o ar fresco. O equipamento em ambos é reciclado com engenhosidade—pneus para arrastar ou onde se pode plantar, equipamentos feitos de restos de madeira e de metal reciclados. E o carrinho de alimentos é um veículo para vender os produtos da terra e um tótem para levar os frutos do trabalho da comunidade para a cidade mais ampla—uma peça de arquitetura móvel.

Não se trata de um projeto que vai mudar o mundo. Está ligado a um pedaço específico de terra não usada abaixo de um determinado tipo de infraestrutura, e deriva sua força das condições específicas e do terreno fértil da borda urbana de São Paulo. Mas, talvez seja exatamente em sua modéstia, na simplicidade de seus objetivos e na natureza ad hoc de sua construção que se torne algo mais. Trata-se de algo a que qualquer comunidade pode aspirar facilmente—e as condições que podem parecer tão específicas—a faixa de terra não usada—são condições que prevalescem em toda cidade, seja o espaço público subutilizado, margens de ferrovias ou de infraestruturas. Com o uso imaginativo, por parte da cidade, de suas caixas de água públicas como pequenos parques públicos, Medelim provou como pode ser produtivo reapropriar posses urbanas das empresas de utilidade pública. O esquema São Mateus parece modesto em comparação, mas é exatamente por isso que ele é reprodutível—com os meios disponíveis mesmo aos mais pobres. Onde falta clareza é na relação com a cidade. A vasta escala de São Paulo significa que aqueles que moram em suas bordas gastarão o início e o fim de seus dias indo e vindo da cidade, para ir trabalhar. Haverá algo suficiente para atraí-los para se deslocarem a um lugar ainda mais distante nos poucos momentos preciosos de seu tempo vago? Ou este é um projeto para aqueles cujos empregos não os levam para o centro da cidade, ou para quem não tem emprego? Os jovens, os idosos, as mulheres, os marginais?

É fascinante que o que no Hemisfério Norte parece ser um projeto decadente, expressando uma burguesia urbana desejosa de produzir comida orgânica própria, para fugir da cidade e buscar as raízes, aparece nas margens do Hemisfério Sul como um salva-vidas, a diferença entre a fome e o desejo, e fornecendo uma ferramenta para coesão e  união social. Talvez seja exatamente neste paradoxo que sua aplicabilidade universal resida.  Aqui, a comida, como  em todas as nossas realidades, está no coração de nossa cultura e nossa sobrevivência.                     

 

encontrando a borda
O projeto em Miravalle trata da infinidade de questões complexas do informal e, no processo de fazer pequenas mudanças a situações particulares, também redefine radicalmente a borda da cidade em um lugar de produção e comunidade real, em vez de um subúrbio dormitório inconveniente distante, disfuncional. Os problemas tratados por este projeto são possivelmente as preocupações urbanas mais universais, e é intrigante ver como soluções dirigidas para as extremidades pobres de uma megacidade do Hemisfério Sul podem parecer tão pertinentes para o tédio da metrópole moderna no clima ameno do Hemisfério Norte.

Trata-se de um esquema sobre bordas, nos contextos macro e micro. De como a cidade termina e como ela encontra a paisagem em sua borda, e de como os limites são definidos dentro do assentamento, como a privacidade é mantida, ao mesmo tempo em que se permite que a vida cívica floresça. Além desses ideais mais abstratos há uma série de intervenções que tratam das necessidades do dia a dia—incluindo um domo para facilitar a coleta de água da chuva potável.

O projeto começou com uma caminhada em grupo. Se esta pudesse ser vista como uma forma de marcar território através de ação cívica, creio que seria considerada como um veículo para se entender o contexto—levar a paisagem para o domínio público psíquico.

Isto é crítico aqui—como em todas as cidades—porque a definição da borda reflete a percepção da cidade em si. Londres tem seu cinturão verde, Veneza tem sua lagoa, Miravalle tem seu vulcão.

Subir em grupo pelo lado verde do vulcão é como uma sessão de vínculo para a comunidade que o faz, e como um ato de apropriação cultural (mas não de posse física). E permite uma visão voltada para a própria vizinhança—este ponto de vantagem coletiva simboliza o entendimento que a comunidade adquire da escala, do contexto e do caráter do assentamento. Também é um vislumbre da beleza—a paisagem, a topografia e a floresta. É uma qualidade que com tanta frequência falta aos assentamentos informais—e às vezes é fácil esquecê-la até mesmo quando se está presente.

Uma vez feita a caminhada ritual, a intenção é que a comunidade em si decida quais intervenções ela pode construir. Esta é uma comunidade altamente organizada que, nas últimas décadas, se definiu cada vez mais socialmente, bem como fisicamente. Aqui, cada projeto é parte crítica da afirmação de sua identidade.

Com base no desenvolvimento da comunidade existente, as intervenções resultantes oscilam entre o sutil e o exagerado, o mágico e o questionável. A definição dos limites nesses contextos é sempre difícil—é compreensível para uma comunidade querer definir a si e à sua borda, mas como isto afeta aqueles que podem chegar no futuro? Isso irá negar aos recém-chegados as oportunidades que seus residentes tiveram? Trata-se de uma nova vizinhança, agora formalizada, que evoluiu de um assentamento informal. Estes seriam símbolos-limite de sucesso e consolidação? Ou de exclusão?

As intervenções anteriores encontradas na paisagem são muitas e variadas, todas construídas com meios modestos, frequentemente com funções duais. Um muro de contenção, necessário para dar a uma creche um playground construído em nível, é transformado em anfiteatro, fórum público e lugar de apresentações. Os degraus são criados com tiras de pneus descartados, as árvores ganham bancos à volta de seus troncos. Essas estruturas são formadas usando-se materiais coletados da paisagem, e a topografia é trabalhada com, e não contra ela, de modo que a paisagem se torna uma característica e não um obstáculo.

Diferente de uma escola construída pelo governo que seria de grande escala e complexa, a comunidade não construiu novas estruturas, amplas, mas negociou e reformou as existentes, adequadas. A nova estrutura totêmica foi um toldo adornado do ‘Domo de Água', transformando-o em um método engenhoso para coletar os aguaceiros abundantes da estação de chuvas, e armazenando a água em uma cisterna para uso comunitário. Este se torna um marco do lugar e de uso, um tipo de poço de vila contemporâneo.

Além desses projetos de paisagem, a colaboração com a comunidade efetivou-se na construção de formas físicas de segurança. Em uma série de mudanças que ecoam os princípios de Jane Jacobs—olhos na rua, portas e quintais abertos, mais conectividade—os espaços públicos eram animados e domésticos, tornando-se seguros para todos através de intervenção mínima,  mas bem pensada, o que também teve o efeito de tornar o espaço público mais coerente e contido. O elemento final da salvaguarda consistiu de espaços de fechamento—baseando-se no princípio de que se um espaço parece ser cuidado, ele será mais respeitado. Este é sempre o caso? Talvez estes sejam os passos que precisam ser dados como experimentos. Alguns podem funcionar, alguns podem desaparecer ou ser adaptados. Mas, como meios de intervenção com recursos mínimos e eficiência máxima, eles são inegavelmente efetivos.

 

Topo da Mesa
A condição fundamental da informalidade é a precariedade. A incerteza existencial que gera a ansiedade da vida informal é exacerbada aparentemente pelas condições da vida diária: o instável, construções ad hoc, o desenvolvimento não planejado que é de algum modo simultaneamente tanto denso quanto esparso demais, a falta de continuidade e as questões referentes aos equipamentos públicos, à terra e à legalidade. Mas ela se estende para além das condições físicas e se torna um aspecto da vida em si. A falta de acesso à educação e ao emprego, a tendência ao crime, a dependência de drogas e álcool, o isolamento social, a falta de comunidade—cada um desses fatores contribui para uma existência na borda, em que todo elemento age como um lembrete da inadequação.

Inúmeros arquitetos, ONGs, inventores, instituições de caridade, engenheiros e diversos outsiders propuseram soluções a esses problemas; no entanto, poucas dessas soluções ganharam mais adesão. Quando os governos participam, os resultados são quase invariavelmente fracassos—soluções fáceis divulgadas em redes obscuras, dispersas demais para fazer uma cidade, as moradias parecidas demais e simplistas demais para criar um cenário de rua. As próprias casas em geral são inadequadas, tornando-se símbolos de dependência e não de realização, e raramente são adequadas às diversas necessidades das comunidades—propondo, em vez disso, uma maneira única de viver, e permitindo pouca coisa mais. Elas não têm como ser ampliadas para acomodar oficinas ou garagens, nem têm espaço extra para acomodar familiares—e levam pouco em conta condições  culturais, sociais ou climáticas.

As soluções propostas por outsiders podem ser inteligentes, mas tendem a não durar muito. Assim que os idelaizadores concluem o projeto, os residentes com frequência recorrem a materiais encontrados e usam técnicas rudimentares para complementá-las. A falta de boas soluções explica Half a Good House, de Alejandro Aravena, que lhe deu o Prêmio Pritzker deste ano. Pode não ser uma solução altamente original, mas propõe uma moradia decente, urbana, com a capacidade de adaptação e ampliação, e permite aos habitantes  expressarem seus próprios desejos e necessidades através da arquitetura, à medida que vão construindo. Os arquitetos gostam dela porque parece um meio-termo entre top-down (Aravena tornou os projetos disponíveis) e bottom-up (os habitantes podem customizar a arquitetura). E eles também gostam porque parece que eles estão fazendo alguma coisa. Ameniza a culpa deles, ao proporem que uma casa decente possa ser oferecida aos pobres. Mas, ainda assim é, necessariamente, uma solução patrocinada pelo estado que demanda dinheiro e expertise em construção.

A Casa-Mesa (Table House) é uma arquitetura arquetípica—pura estrutura, uma provisão mínima de postes e vigas que fornecem uma base sólica, pouco mais que isso. É a expressão estrutural exatamente da estabilidade que falta à vida em assentamentos informais.

Uma das coisas mais intrigantes sobre a Casa-Mesa é que ela pode acomodar uma moradia existente abaixo dela. Em terremotos, condições climáticas extremas (ou guerras nucleares, como já houve), somos orientados a agachar sob uma mesa para nos proteger contra a queda de entulhos. A mesa—a expressão mais elementar da vida familiar e do alimento—torna-se um tipo de arquitetura de proteção simbólica e literal.

A estrutura é simples—pilares de aço (como os pés de uma mesa, conferindo verticalidade) e vigas de aço e a laje (o tampo da mesa), e uma junção que parece um tipo de  coluna concreta capital. A laje pode ser o teto de um barraco existente, ou o primeiro piso. A construção permite flexibilidade dentro da estrutura ou pode se tornar a própria estrutura. O mais importante é que ela ancora a moradia ao chão—uma base sólida para começar.

A metáfora  funciona para os trabalhadores e para os moradores. Os co-designers da Casa-Mesa, Hands of Honour, são uma iniciativa comunitária que trabalha nos Cape Flats com desempregados locais e com aqueles que estão se recuperando da adicção a drogas. eles fazem móveis simples usando materiais reciclados. O ponto alto é que as pessoas também se reciclam, suas vidas despedaçadas são emendadas. O processo de construção e o aprendizado das habilidades necessárias—solda, construção, a colocação do concreto—constituem uma experiência valiosa, e ajudam a construir a confiança e a colaboração.

Existe algo ligeiramente 1960s sobre a Casa-Mesa—a ideia da megaestrutura tirada da escala do informal. Muitos dos arquitetos mais radicais do período estavam olhando para as estruturas espaciais e superestruturas (Ville Spatiale, de Yona Friedman, space-frames de Konrad Wachsmanne os desenhos visionários de Superstudio vêm à mente). Cada um via que o arquiteto do futuro pode ser empregado, não para criar a moradia individual, mas a estrutura dentro da qual os habitantes seriam livres para construir seus lares como quisessem. Esta foi uma visão libertária, de ficção científica, que transferia ideias contemporâneas de bases planetárias extra-terrestres e de paisagens pós-apocalíticas para cidades-dormitório, e fornecia maneiras de se construir acima dos centros históricos existentes sem destruir o tecido original. A Casa-Mesa é um tipo de versão miniaturizada, com a mesma idéia de liberdade em que é o morador quem determina os materiais, a escala e a aparência da casa. O arquiteto não dita as condições, a estética ou o estilo de vida—mas fornece apenas a estrutura, ancorando a casa ao lugar e a moradia à cidade.

 

Desperdício e Espaço
Sangam Vihar é um assentamento talvez de um milhão e meio de pessoas na borda de Délhi. É um território imenso, mas negligenciado, na fronteira entre a floresta e a megacidade. A vizinhança é habitada basicamente por recém-chegados à cidade; logo, sua noção de identidade e pertencimento está muito em fluxo, algo ainda não formado. Como uma colônia não autorizada, não só falta provisão de infraestrutura básica ao assentamento quanto uma noção de legitimidade; ela também é vulnerável a decisões de planejamento—o plano master da cidade prevê um anel viário que poderia abrir a área para especulação imobiliária.

Este projeto complexo, colaborativo, é uma tentativa de consolidar a noção de comunidade, localização e tecido físico dentro de uma estrutura frágil. É um esforço para reforçar as ligações entre pessoas e lugar, mas também sinaliza a presença do lugar—espacial e politicamente—dentro da vasta metrópole indiana. Para fazer isto, a iniciativa embarcou no chamado 'Schizo-Plan'—uma abordagem definida por não ser determinadamente um plano master—onde as equipes de projeto e diferentes vozes da comunidade desenvolveram ferramentas de micro e macro planejamento para facilitar a ação local, e se comunicar com agências governamentais em geral.

Parte do projeto envolveu marcar o território com o uso de sinalização e a locacão de balões para estabelecer identidade e comunicar legitimidade além do assentamento. Com base nos símbolos onipresentes do Google Map, esses marcadores se tornaram uma intervenção artística lúdica, quase pop, uma tentativa de estampar uma noção de lugar na consciência coletiva da comunidade e da cidade. Cinco balões vermelhos identificaram sítios e eventos ao longo da borda para facilitar o registro do assentamento, e estabelecer a borda verde como a nova frente de Sangam Vihar.

Ao longo dos projetos de gestão de água e lixo, outras iniciativas incluíram a criação de maquetes dos espaços verdes em um esforço de aumentar a consciência sobre o potencial de transformar o lixão na borda do assentamento em espaço público, agindo, ao mesmo tempo, como barreira para proteger a área vulnerável do assentamento. Através da ativação do espaço urbano a iniciativa tenta, em última instância, forjar um novo diálogo entre os frágeis constituintes urbanos que não dispõem de direitos nem de segurança.

 

TROCA: TRANSFERência, TRansação e transforação
Há uma ideia persistente que o Norte Global poderia aprender com o Sul Global: a noção de que a variedade surpreendente, a inventividade, a engenhosidade e a velocidade com a qual os assentamentos informais podem responder a crises sucessivas e a mudanças na situação, poderiam fornecer inspiração para as cidades rígidas, aparentemente estáticas e inflexíveis do Hemisfério Norte.

O contraste entre a inteligência incorporada em áreas informais não planejadas, e a letargia, a falta de responsividade e o puro desperdício frequentemente característicos do planejamento nas cidades mais ricas, certamente parece favorecer as primeiras. Lemos que planejamento é a base de toda cidade civilizada; no entanto, que espaço o sistema deixa para improvisação? Muitas das cidades mais bem-sucedidas têm provado ser inadequadas para lidar com mudanças radicais com as quais devem lidar: imigração maciça de culturas muito diferentes; crises financeiras; populações envelhecendo; o colapso de indústrias pesadas; globalização.

A ironia é que o espaço está lá. Na Alemanha Oriental, onde o planejamento tem respondido a interesses políticos e sociais, e não a uma agenda comercial, o espaço público é abundante, no entanto adormecido. A terra de ninguém representada por espaços comuns neglicenciados entre quadras residenciais e edifícios municipais deveria apresentar uma oportunidade para se criar um território capaz de unir comunidades díspares, e usar a cidade como espaço social. No entanto, isto não acontece. Quer isto se deva à relutância de comunidades acomodadas no convívio com os seus, ou quer seja porque as pessoas não têm modelos, a linguagem e a experiência para ativar o espaço público é incerta. Ou mesmo, talvez por causa da maneira rígida como a cidade contemporânea é controlada—a legislação que demanda responsabilidade por qualquer acidente ou evento não planejado. Seja o que for, a transferência de conhecimento parece problemática.

 

O desafio para essas cidades—que poderiam ser prósperas—se adaptarem a condições em mudança será tratar da atomização e alienação incorporadas em seus momentos atuais. As cidades são medidas incessantemente em termos de PIB, transações financeiras, valores de terra e agora mesmo em medidas questionáveis de 'alegria'. O arquiteto Teddy Cruz sugeriu, em vez disso, que meçamos a densidade e o sucesso da cidade em termos de transações sociais e não financeiras. Se este for o caso, então a miríade de encontros e barganhas, os favores e as conversas trocados entre os vizinhos, o cuidado gratuito dos bebês como iniciativa espontânea, e o cuidado dos idosos na família estendida, de repente aparece como evidência de sucesso.

Os cidadãos do Norte Global passaram décadas aprimorando suas condições de vida e acabaram se vendo isolados, preocupados com a segurança e separados de seus entes queridos. Podem os ‘commons’ urbanos podem ser ressuscitados para tratar dessas questões? Podemos usar as medidas aparentemente simples, inventadas e adotadas nas condições do informal, para começar a levar a cidade a se tornar unida novamente?

Esta é uma questão sobre a ideia de uma cidade. Para que serve? Para quem ela é? As experiências do urbanxchanger nos permitem entender melhor a humanidade que está no coração da cidade. Elas nos fazem pensar sobre o que é a cidade, como ela é definida, e como podemos fazer a nossa parte redesenhando-a onde ela for considerada deficiente. A troca fornece um entendimento de que a escassez nem sempre é uma questão de recursos, mas pode ser a falta de coesão, envolvimento e inclusão. Há sempre algo a ser aprendido.

 

Edwin Heathcote

Escritor e arquiteto, Edwin Heathcote é mais conhecido como o crítico de arquitetura e design da Financial Times. Heathcote é autor de mais de uma dezena de livros, tem coluna regular na revista GQ, e escreve para inúmeras outras publicações, entre elas Icon, Apollo e L'Architecture d'Aujord'hui. É fundador e editor de readingdesign.org, um arquivo sem fins lucrativos de escritos críticos sobre todos os aspectos do design.

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