Intercâmbio urbano: Novas Formas de Colaboração nas Cidades

Marcos L. Rosa é arquiteto e planejador urbano, e curador do urbanxchanger.

Co-DESENHANDO CIDADES
'Co', como prefixo, indica parceria ou igualdade. Refere-se a algo feito conjuntamente, junto, e com relevância mútua. Co-design refere-se ao fazer das cidades coletivamente. Na tradução em português, adotamos a palavra desenho, embasados nessa noção do fazer, e com referência ao entendimento de desenho urbano, como algo enfocado na escala e experiência humana. Uma cidade é o resultado de um esforço coletivo vertido no fazer de seus espaços, logo a questão que gostaríamos de focar aqui é como esses atos de fazer são realizados.

Ao reconhecer o fato de que as cidades são o resultado do coletivo, há um grande potencial para mudança na maneira como elas são construídas atualmente. Mas para que a mudança aconteça, há uma necessidade para os designers entenderem a complexidade dos cenários cultural e social que eles encontram em seu trabalho, e para que as iniciativas comunitárias captem o potencial de designers treinados para contribuir para condições de vida mais aceitáveis e melhores.

Num esforço de forjar novas formas de colaboração nas cidades, o urbanxchanger foi criado para aproximar a arquitetura do que referimos como uma inteligência informal. Neste jornal mostramos este processo através da colaboração entre designers, ou profissionais que atuam em temas urbanos, e iniciativas comunitárias locais em quatro cidades: São Paulo, Cidade do México, Cidade do Cabo e Nova Délhi.

Um intercâmbio urbano
Uma equipe desses profissionais de cada uma das quatro cidades foi pareada com uma equipe de designers de Berlim. As quatro equipes resultantes foram apresentadas a uma iniciativa comunitária local selecionada da lista de finalistas do Deutsche Bank Urban Age Award.

Iniciativas comunitárias com um forte impacto sobre, e interesse no ambiente construído foram escolhidas para o projeto. Além disso, procuramos iniciativas cujo trabalho estava ligado a macroestruturas, relacionando-se portanto à escala metropolitana, apesar de seus projetos serem focalizados no aprimoramento de espaços urbanos em nível local. Nossos critérios de seleção se apoiaram na justificativa: embora o urbanxchanger reconheça a fragilidade da ação isolada—devido a seu caráter local—o programa também analisa os mecanismos usados para gerar mudança, e examina como aqueles mesmos mecanismos poderiam ser aplicados em uma escala maior.

Esse pensamento levou a quatro cenários distintos: as hortas urbanas sob a rede elétrica em São Mateus, São Paulo; os espaços comunitários ao longo de bordas de Miravalle, Cidade do México; os espaços autoconstruídos encontrados 'na borda' da favela em Sangam Vihar, Nova Délhi; a reciclagem das pessoas através de treinamento de capacitação, sendo usado para abordar da crise habitacional em Cape Flats, Cidade do Cabo.

Depois de discussões a longa distância, os grupos se encontraram pela primeira vez em cada uma das quatro cidades respectivas, onde foram apresentados às iniciativas comunitárias locais através de oficinas aprofundadas e especificas. As oficinas incluíram visitas aos locais, caminhadas urbanas, discussões multidisciplinares, conversas informais, e sessões de design participativo com residentes locais. Durante todo o projeto, as equipes e comunidades trabalharam com curadores e coordenadores locais, que foram atores-chave na mediação do processo devido ao seu trabalho prévio com iniciativas comunitárias selecionadas.

OS OBJETIVOS DE UM PROCESSO ABERTO
Intencionalmente, não pedimos para as equipes construírem nada, mas que ouvissem e aprendessem uns com os outros, e em campo. Eles foram solicitados a testar modos de ação colaborativos com a comunidade e a desenvolver uma abordagem local, orientada para o processo, para lidar com os desafios enfrentados por cada uma das iniciativas, reimaginando a relação entre as iniciativas comunitárias, os praticantes urbanos e a cidade. Em cada caso, o processo foi orientado pela participação e negociação ativas de todas as partes envolvidas no processo.

Vindas de diferentes cidades, as equipes foram solicitadas a usar suas diferentes perspectivas para refletir se e como o conhecimento urbano e a inteligência social de uma cidade poderia ser transferida para o tecido sociocultural de outra cidade. Foi considerado vital que essa troca de conhecimentos e compartilhamento de experiências  fossem mutuamente relevantes e benéficos. As iniciativas comunitárias deveriam ser capazes de trocar experiências e se beneficiar com ideias compartilhadas a fim de se ajudarem mutuamente a superar os desafios que enfrentam.

No processo de chegar a soluções, as equipes foram encorajadas a examinar o status quo do design do ambiente construído, para considerar a noção de responsabilidade compartilhada para o ambiente construído, e tratar do impacto social e político, ambiental e econômico de suas ações. Em todos os casos, as soluções propostas foram testadas ou implementadas no ambiente urbano.

REFLEXÃO
Mais tarde, as equipes se encontraram em Berlim, uma cidade considerada por alguns como um centro para inovação urbana contemporânea. Aqui, os times foram capazes de compartilhar seu trabalho e descobertas e a refletir sobre seus processos, com base em feedback das outras equipes bem como no contato com iniciativas comunitárias baseadas em Berlim. Esta fase do urbanxchanger envolveu reflexão crítica sobre práticas experimentais que tinham sido desenvolvidas nas quatro cidades parceiras. Uma crítica das abordagens metodológicas usadas foi feita, juntamente com uma análise das ferramentas geradas através do processo de trabalho e de uma interrogação da transferência de conhecimento adquirido com a experiência.

QUATRO NARRATIVAS
As quatro práticas apresentadas aqui revelam abordagem alternativas ao planejamento convencional. O conhecimento que eles produziram está relacionado aos aspectos sociais e processuais do espaço, e podiam provar ser de grande uso para comunidades, designers e governos.

Com base na experiência do urbanxchanger, sugerimos que o campo de estudos urbanos pode incorporar modos locais de fazer as coisas. Esta linha de pensamento aponta para uma revisão necessária dos instrumentos correntes disponíveis para intervenção. Sugere uma mudança do design do objeto arquitetônico, para um design capaz de articular as complexidades envolvidas em espaços urbanos—os meios de produção nas cidades, bem como de que modo os espaços são usados, apropriados e vivenciados. Esses atos de transformação do espaço enfatizam o papel dos 'fazedores' e modos de 'fazer o lugar' que resultam de uma constelação de relações sociais acenando junto para um determinado lugar.

O processo de refletir sobre e criticar a experiência urbanxchanger gerou conhecimento crítico em duas áreas principais: levantou questões e orientou ajustes às práticas desenvolvidas nas quatro cidades, e mostrou como as experiências e o conhecimento ganho poderiam ser transferidos para a cidade de Berlim.

Isto enfatiza os diferentes níveis de colaboração envolvidos nesta iniciativa. Não se trata simplesmente de o Sul aprender com o Norte, ou o contrário, ou sobre arquitetos, designers ou profissionais urbanos aprenderem com iniciativas comunitárias, ou vice-versa. Mais importante, o processo enfatiza o discurso do 'co-' como possibilidade em nível global e enfoca a 'natureza de participação' muito discutida através das lentes do design, metodologias, ferramentas e técnicas.

No centro do projeto urbanxchanger está o conceito de co-design: colaborar com os usuários—aceitos como experts em seus próprios ambientes—em vez de desenhar para eles. A abordagem também é sobre postular o impacto e o papel da arquitetura e do design como disciplinas que deveriam se engajar com o status quo e contribuir para modelar ambientes urbanos adequados. É sobre encontrar o potencial para mudança engajando com os desafios impostos pelas vidas diárias dos habitantes. É sobre juntar forças políticas a fim de empoderar residentes a transformar suas próprias realidades através de uma abordagem prática, participativa e a partir  dos recursos disponíveis. Finalmente, é sobre canalizar diferentes perspectivas em uma única direção inovadora a fim de co-desenhar futuros possíveis: juntos, mutuamente e conjuntamente.

'Co-desenhando cidades: arquitetura e inteligência informal’ refere-se a uma abordagem colaborativa com respeito à arquitetura, ao planejamento urbano e ao design e gerenciamento de espaços públicos, que potencializa comunidades locais, enquanto produz ganhos diretos para elas. O processo de pesquisa apresentado aqui identifica oportunidades e desenvolve instrumentos alternativos para intervir na construção de espaço coletivo.

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